A
resposta aponta para a “arte de governar”.
se estabelecem. Ao contrário do príncipe,
a prática do governo é múltipla
e imanente. São outras relações
que
As
diversas formas de governo, de modo especial, a economia,
passam a fazer parte essencial da gestão do Estado.
A economia passa a ocupar cada vez maior espaço
nas complexidades de governar, principalmente a partir
do século XVIII. Ao invés de “território
e pessoas” passam a se governar as “coisas”.
A tarefa agora é governar os homens, suas relações,
seus laços com os recursos econômicos e
naturais e as relações que os homens estabelecem
com isso tudo. Cita-se aí a metáfora do
barco, que se relaciona bem com a complexidade dos governos
inaugurada no período clássico. Governar
um barco “é cuidar do navio, da carga,
levando em conta os ventos, as tempestades, a relação
com os marinheiros..”.
A
“salvação de todos”, a “utilidade
pública” que significa a obediência
para que a nova forma de governo possa dispor as coisas
para as devidas finalidades. Abre-se um processo vivo
que implica uma larga escala de táticas. A nova
concepção e exigência dos governos
atende a uma nova realidade que começa a surgir:
as monarquias territoriais, o mercantilismo. A realidade
passa a determinar as mudanças na forma de governar.
As novas realidades produzem a arte de governar. Desaparece
a família, na concepção de governo
do soberano e aparece na arte de governar a população
com seu destino, suas riquezas, saúde, longevidade.
A população passa a ser a “finalidade
e instrumento do governo”. Essa arte de governar
constitui as novas bases para o surgimento da ciência
política. Onde se colocam novos mecanismos de
gerir a população. Coloca-se a necessidade
de desenvolver as disciplinas. Existe a partir daí
a necessidade de uma composição onde a
população faz parte ativa. O exercício
do poder depende e se objetiva na população.
A população faz parte de uma relação
na qual os dispositivos de segurança são
essenciais para a governamentalização
do estado. O poder está nas relações
e a disciplina torna o poder eficaz. A disciplina tem
como objetivo tornar o indivíduo produtivo.
Trabalha-se
agora com a noção de docilidade, o corpo
submetido e utilizado. A disciplina assume dupla função:
aumenta a força produtiva e diminui a força
política (obediência). Inaugura-se aí
a “microfísica do poder”. O espaço
da disciplina é celular. Cada indivíduo
ocupa o seu lugar. São indivíduos ocupando
o seu lugar. As multidões perigosas passam a
ser docilmente organizadas. Existe horário, medida
do ato, correlação do corpo com os gestos,
corpo-objeto, controle do tempo para evitar desperdício
e aumentar a eficácia administrativa. A massa
deve ser individualizada para no conjunto funcionar
e produzir mais. Quer se obter “um aparelho eficiente”.
“A política como técnica da paz
e da ordem internas procuram pôr em funcionamento
o dispositivo do exército perfeito, a tropa dócil
e útil”. Para tudo isso seguir é
preciso vigilância. É preciso olhar tudo.
Ver tudo ao mesmo tempo a partir de um olhar a quem
todos os olhares convergem. Aperfeiçoa-se a organização
dos controles. A punição passa a ter sentido
duplo: sanção e gratificação,
castigo e recompensa.
Todos
passam a se parecer porque cada indivíduo, na
massa, exerce os seus deveres de modo exato. Os atos
singulares formam a ação de uma grande
massa homogenia. O indivíduo, a partir de uma
elaborado conjunto de técnicas, é fabricado.
O indivíduo é produzido.
O
exemplo genial para a representação disso
é o “panóptico”, onde o indivíduo
é visto, mas não vê. Imagina o poder
funcionando permanentemente. Uma invenção
genial para a ordem política. Os indivíduos
são produzidos para que na massa sejam úteis.
A disciplina passa a circular livremente para que possa
aumentar a docilidade e a utilidade ao sistema. Sujeito
disciplinado é sujeito livre. Sistema este que
deixa tudo muito parecido, mesmo que estejamos falando
de prisão, fábrica, ou escola.
Sergio Antonio Kumpfer
|