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O Estado nacional a partir da década de 80, passou
por extraordinárias modificações.
O Estado assentado no movimento real determina e é
determinado. Não se trata de um ente abstrato.
É no movimento histórico que estão
seus alicerces. Portanto, este movimento da sociedade
concretiza um determinado tipo de Estado. Foram os movimentos
reais que modificaram o papel do Estado, que por sua
vez produziram mudanças nas políticas
sociais. Neste período o Estado “Keynesiano”
– das políticas sociais universais e do
pleno emprego – foi modificado.
A campanha de redução do Estado visa na
verdade esvaziar o espaço público e reduzir
as demandas da população. A estratégia
neoliberal para superar a crise do capital adotou a
reestruturação produtiva, globalização
financeira, a privatização e a terceirização
como alternativas do poder do capital.
Este
movimento tem objetivo de esvaziar o Estado e com isso
enfraquecer o poder real da democracia. Poder fora do
Estado, neste caso é poder do capital. No Brasil,
nestas duas últimas duas décadas, foram
concretizadas a partir do Estado, as políticas
neoliberais. Claramente nos governos de FHC e de Antônio
Britto no Rio Grande do Sul. Ambos operaram inúmeras
privatizações e com isso transferiu o
poder do Estado para o capital privado. Mas não
perde apenas poder, transfere também responsabilidades
para a sociedade. Movimento que no concreto destrói
direitos sociais e de modo generalizado brutaliza profundamente
as relações de trabalho.
A
desregulamentação, flexibilização
e terceirização estabelecem o privilégio
do capital sobre a força humana do trabalho.
Com
a consolidação de uma visão neoliberal
os movimentos sociais passam a opinar cada vez mais
sobre aspectos secundários das políticas
públicas e tem menos poder real para defender
os interesses gerais das classes trabalhadoras.
Evidentemente,
que esta visão vai sendo plantada com “jeito”,
com argumentos bons, e que muitas vezes se confundem
com o discurso dos movimentos sociais e da democratização
dos espaços públicos.
A
vitória do neoliberalismo modifica a constituição
da igualdade e da liberdade diante do Estado e a transfere
para o mercado, onde são exercidos de acordo
com as habilidade e competências de cada um. Em
muitas ocasiões, se identificam com o nosso discurso
da democratização do espaço público,
do trabalho das Organizações não
Governamentais e associações de cooperação
mútua sem relacionar essa questão com
o movimento maior promovido pelo capital e pela política
neoliberal de tornar o Estado cada vez mais enxuto.
A
nossa tarefa como profissionais da educação
se tornou muito complexa nas últimas duas décadas.
As críticas que constituíram nosso discurso
pela democratização da escola pública
não é a afirmação da política
neoliberal, mas foi apropriado por ele, de tal forma
que no fim parece estarmos falando da mesma coisa. Esta
política caminhou para um modelo em que educação
passou a ser defendida como “um bem essencialmente
privado, e cujo valor é antes de tudo econômico.
Não é a sociedade que garante a todos
os seus membros o direito a cultura, são os indivíduos
que devem capitalizar recursos privados cujo rendimento
futuro será garantido pela sociedade. Esta privatização
é um fenômeno que afeta tanto o sentido
do saber, as instituições transmissoras
dos valores quanto as próprias relações
sociais”.
Mudou
a concepção de escola. Na concepção
republicana a escola “era voltada a formação
de cidadãos, mais do que a satisfação
do usuário, do cliente, do consumidor”.
Esta
transformação não é elaborada
no âmbito local – dos Estados nacionais.
Ela é decisão política da OMC,
OCDE, FMI, Banco Mundial e Comissão Européia.
Esta mudança é uma política viva,
está em andamento. Não é uma realidade
acabada. A educação passa a integrar os
mesmos interesses do mercado. “A formação
é o grande mercado do próximo século”
de acordo com a visão de Claude Allègre.
Assim
como em determinado período histórico
“a principal função da escola era
a integração moral, lingüística
e política da nação; em outro período
no qual o imperativo industrial nacional ditou a finalidade
da instituição; ha fase atual, o mercado
determina mais diretamente as mudanças da escola”.
O
discurso usado pode ser bonito, mas o objetivo elimina
todas as barreiras que dificultam a expansão
do poder do capital. A escola passa a servir radicalmente
aos interesses do capital. Ela própria passa
a ser modelada como empresa. Isso se refere a sua estrutura
administrativa e a seus aspectos pedagógicos
com menos peso para a formação do cidadão
e uma carga muito maior na formação flexível
para se adaptar aos novos tempos da economia. O que
se percebe é a construção de um
vazio dos grandes valores de igualdade e de solidariedade.
A
educação é um setor que está
sendo arduamente disputado, porque o seu controle não
é apenas uma questão de lucro, busca-se
o controle e a influência no poder público.
A educação como papel do Estado não
é mais uma verdade inteira. O mercado está
interferindo decisivamente na educação.
O espaço escolar é de interesse particular
e de financiamentos privados.
Um
caminho fácil é não investir em
escolas e universidades públicas, por exemplo.
Neste vácuo se instala o ensino privado, os pacotes
de educação à distância,
programas de formação de professores fáceis
e rápidos.
Verificamos
num curto período histórico que o poder
do capital defende determinado modelo de estado para
atingir seus objetivos de expansão. E quando
convem, o poder do capital propõe o radical esvaziamento
do Estado para também com isso fortalecer seus
objetivos de expansão e de acúmulo.
Este
é o momento presente em que passa a educação.
Ela está no centro do interesse do capital, como
empreendimento lucrativo.
Para
nós, educadores, esta não pode ser uma
verdade. A educação deve estar a serviço
das pessoas para construir um mundo de paz, justo e
equilibrado. E não ser mais um componente que
alimenta a concorrência e as desigualdades.
Sergio Antonio Kumpfer
Referências
Bibliográficas:
LAVAL, Christian. A escola não é uma empresa.
O neoliberalismo em ataque ao ensino público.
Ed. Planta, 2004.
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