Home

Conheça o Serginho
Secretaria de Educação
Agenda
Fórum
Artigos
Imagens
Notícias
Mandato de Vereador
Leis
História de Viamão
Links
Telefones Úteis
Contato
Artigos
Diante do Mal Absoluto
17 de março de 2007 - Marcos Rolim
Luc Ferry vem aí e deveríamos prestar atenção no que ele tem a dizer. Os que lidam com rótulos terão dificuldade. Ferry é um filósofo que critica a filosofia praticada nestes tempos bicudos. Ele não cabe na “direita” ou na “esquerda”, não é “pós-moderno”, nem, exatamente, “moderno”. Sua crítica ao materialismo (exposta no debate com André Comte-Sponville) é a mais persuasiva que conheço e não é feita desde uma perspectiva “idealista” ou religiosa. Aliás, para ele, materialismo e religião constituem os dois grandes anti-humanismos teóricos de nossa época. Ferry propõe que se reconheça o “sagrado” como o limite para além do qual mergulhamos no “mal absoluto”, expressão que designa “o mal como projeto”.


Lidamos com o sagrado, em termos pagãos, quando nos defrontamos com algo pelo qual valeria a pena sacrificar nossa vida; nossas crianças, por exemplo.

Referindo-se a Ruanda, Ferry diz que as imagens de crianças sendo cortadas com machadinhas evocam o diabólico: “se o ‘diabo’ é aquele que isola e desola, não resta dúvida que aqui ele deve estar em seu elemento”. Não que o sofrimento dos adultos não deva indignar, mas eles podem encontrar em suas lembranças ou mesmo na inteligência a medida para algum distanciamento da dor. As crianças chacinadas estão irremediavelmente sós. O que choca não é só a morte ou a dor. O que nos golpeia e atordoa é algo mais importante do que a vida: é a profanação do “sagrado”.

João Hélio é o nome do sagrado no Brasil. É o limite que nossa sensibilidade média pôde construir em uma nação largamente insensível ao sofrimento. No caso, para além da morte de uma criança, temos o desprezo absoluto pelo outro e a impossibilidade de construção de um sentido, qualquer que seja, capaz de suportar o demoníaco. Daí nossa impotência e...nossa fúria.

Mas se quisermos construir um caminho capaz de estreitar os espaços para a emergência do mal será preciso pensar ao invés de cerrar os punhos. Poderíamos começar nos perguntando porque os crimes violentos no Brasil alcançam seu “pico” aos 20 anos e não logo antes dos 18, início da idade penal? Se a imputabilidade pudesse oferecer uma resposta adequada à violência juvenil, não seria de se esperar que houvesse menos crimes entre, por exemplo, os 18 e 20 anos se comparados àqueles cometidos entre os 16 e os 18? Menores de 18 anos são responsáveis por 1%º dos homicídios com autoria conhecida em São Paulo. A média brasileira não deve ser muito diferente disto. Mas queremos reduzir a idade penal, o que significa mandar para os presídios os jovens que hoje mandamos para as FEBEMs. Alguém pode indicar uma vantagem? Ah, o problema é o tempo máximo de 3 anos de internação previsto pelo ECA? Então porque não mudamos isto, estabelecendo que os adolescentes com os perfis mais agravados permaneçam mais tempo privados de liberdade? Assim, poderíamos mantê-los longe dos presídios, em instituições onde, mesmo com seus limites, as chances serão sempre maiores de recuperação. Mas a idéia de recuperar é capaz de nos seduzir? Não a teremos permutado pela demanda de impor sofrimento? E se o fizemos, não assumimos o mal como projeto? Com a palavra Luc Ferry.

PS – Não encontraram o artigo aquele da Lei da Reforma Psiquiátrica do RS que mandaria “fechar leitos psiquiátricos”. Por uma simples razão: a Lei nunca determinou isto. Bom, mas agora, pelo menos, eles devem ter lido a Lei.

Marcos Rolim
46 anos, é jornalista e Consultor em Segurança Pública e Direitos Humanos. Presta serviços para Prefeituras, órgãos públicos e ONGs, sendo consultor ad hoc da UNESCO, do PNUD, da UNICEF e do BID.