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A
maioridade de um país
Rudá
Ricci
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Uma
nação não se faz pela irracionalidade.
Pode ser levada à aventuras, mas não se
constrói por ímpeto, pela angústia
ou pela descrença. Um país, pelo contrário,
se faz pela esperança e pela utopia de ser fértil
e fincar a crença na prosperidade. Este, aliás,
é um dos princípios do Estado Moderno:
sustentar a crença individual num futuro melhor.
Nestes últimos dias, a ação selvagem
de alguns jovens, que nos impele a descrer no projeto
humano, parece convidar ao irracionalismo, irmão
gêmeo da selvageria. Uma trama que a mente humana,
de tempos em tempos, cria e que faz o errado parecer
certo. |
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A
discussão, importante e necessária,
sobre a redução da maioridade penal
está mergulhada em forte comoção
e pode servir a interesses não muito claros
e inconfessos.
Há
muita desinformação a respeito. Uma
das questões encoberta pela comoção
que envolve o debate atual é a tradição
latina sobre desenvolvimento humano. Nossa cultura
é oposta à tradição jurídica
da Inglaterra e EUA. Para estes dois países
(há alterações importantes em
curso) crianças e adolescentes acusados de
autoria de atos infracionais podem ser punidos. Foi
publicado, no Brasil, um importante livro intitulado
Gritos no Vazio: a história de Mary Bell, de
autoria de Gitta Sereny, que relata os equívocos
desta concepção jurídica e sociológica.
O livro trata da prisão de uma pré-adolescente
que assassinou duas crianças. Um fato real
e dramático. A tradição e cultura
latina é mais comunitária e menos individualista.
Baseia-se na convicção que o processo
educacional não é uma virtude individual,
mas uma responsabilidade da coletividade. Na prática,
isto significa que uma criança não possui
responsabilidade sobre o que faz, não tem maturidade
intelectual suficiente para compreender a gravidade
de seus atos. Muitos estudos da psicologia comprovam
esta tese. Há estudos de anglo-saxões,
inclusive, como Lawrence Kohlberg, seguidor de Piaget,
que comprovam esta tese. Por este motivo, atos de
crianças são imputados aos seus pais
ou responsáveis. São eles que assumem
a responsabilidade dos seus atos. No caso dos adolescentes,
a situação é mais complexa. Eles
não são adultos, mas não são
mais crianças. Os latinos sugerem que eles
sejam considerados responsáveis, mas não
imputáveis. Na prática, significa que
eles sabem o que fazem, mas ainda estão em
processo de amadurecimento. Eles já têm,
inclusive, maturidade física para ter filhos
e para dirigir carros, mas a sociedade considera que
não têm maturidade intelectual para efetivar
esta realidade. Seus atos infracionais não
são julgados tendo por fim uma pena, mas uma
medida sócio-educativa, de caráter essencialmente
pedagógico. É verdade que parte do sistema
judiciário, fundado na lógica criminal,
sentem dificuldades em compreender a lógica
pedagógica. Mas é importante destacar,
assim mesmo, que nesta tradição a sociedade
adulta entende que há, ainda, uma última
ação a ser desenvolvida para com esta
pessoa que está em processo de formação.
Os
argumentos pela diminuição da maioridade
penal incorrem no erro de idealizar a idade e desconsiderar
o processo de amadurecimento do ser humano. Desconsidera
situações cotidianas, como o julgamento
que fazemos sobre um ato incorreto de uma criança
e nossa postura sobre o mesmo ato cujo ator é
um adulto. A expectativa sobre o comportamento de
um é absolutamente distinta em relação
ao outro, justamente porque a idade define a compreensão
de mundo e de responsabilidade sobre ele. Jean Piaget,
desde os anos 30 do século passado, desenvolveu
pesquisas que revelaram que os seres humanos se desenvolvem
moralmente por estágios. Demonstrou que uma
criança respeita regras não porque compreende
sua função e natureza, mas porque teme
ser punida ou perder o carinho de quem lhe ensina
a regra. Tempos depois, já sabe empregar a
regra no convívio com seus pares de idade,
mas ainda não tem a compreensão sobre
justiça. Na adolescência, já constrói
esta noção, mas em fases mais complexas,
gradativamente, de compreensão. Enfim, amadurece
moralmente aos poucos. E amadurece, como outro psicólogo
procurou provar (Lev Vygostsky), a partir de estímulos
externos, que devem ser programados, no caso dos educadores.
Tratar
adolescente como adulto é um erro que coloca
em xeque não apenas nossa cultura, mas a própria
esperança na vida e na vida social.
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