Depois
da tragédia com o vôo da TAM, que vitimou
cerca de duas centenas de pessoas, o noticiário
e os comentaristas de uma forma geral avançaram
para um ataque direto, não mais às empresas
e instituições ligadas ao setor aéreo
(Gol, TAM, Infraero, Anac, Aeronáutica etc.),
mas diretamente ao presidente Lula e ao seu governo.
Mesmo
quando ficou claro que a causa do acidente não
foi a entrega da pista sem condições adequadas
(hipótese imediatamente comprada por toda a mídia
como definitiva, mesmo sem qualquer evidência
consistente), a escalada em direção ao
centro do governo não parou, sendo que o episódio
da “imagem clandestina”, que envolveu Marco
Aurélio Garcia e Bruno Gaspar, serviu como senha
para que o assunto passasse a ser a insensibilidade
de um governo que, além de incapaz de agir e
resolver problemas importantes, transforma tudo em disputa
política... rasteira e obscena.
É
sabido que mais do que a imagem, o importante para a
construção de opinião é
a chamada metamensagem, aquilo que não é
dito por palavras, mas está subjacente ao texto
e à imagem e, portanto, é recepcionado
de forma diferente por cada pessoa, sendo diretamente
relacionada aos seus valores e experiências. As
empresas de comunicação de massa valem-se
amplamente deste conhecimento no processo de produção
de opinião (como é evidente na publicidade,
que vive da fabricação e incitamento do
imaginário dos consumidores, sempre buscando
transformar as mercadorias que vende à satisfação
deste imaginário).
A
mídia utiliza fartamente as imagens para dar
solidez às suas idéias e interpretações,
que quase sempre são anteriores e até
mesmo independem delas. Não é por outra
razão que havia, segundo foi noticiado posteriormente,
uma orientação da Globo para que seus
cinegrafistas mantivessem campanas sobre algumas salas
do Palácio do Planalto.
Ou
seja, a captura daquela imagem não foi fortuita,
ao acaso. A decisão de buscá-la foi caso
pensado e fruto de decisão superior. Não
há notícia de que isto tenha sido feito
em governos anteriores, ou em algum outro governo estadual,
por exemplo.
A
partir daí, a busca por informações
mais consistentes sobre o contexto e os motivos da tragédia
(o que seria o esperado depois de cair por terra a primeira
hipótese), foi substituída por um discurso
crescentemente intolerante, no qual as ações
e explicações originadas do governo são
imediatamente desacreditadas, ou, no mínimo,
colocadas sob suspeição.
O
caso do laudo do IPT, comentado por Paulo Henrique Amorim
(Conversa Afiada), é exemplar. Apesar do laudo,
publicado no site do jornalista Fernando Rodrigues,
afirmar que as condições do asfalto da
pista de Congonhas são de qualidade, a Folha
de S. Paulo (empresa na qual ele trabalha) “escondeu
a notícia”.
No
entanto, no site “Último Segundo”,
do iG, o editorialista do Estadão, Luis Weiss,
publica outro relatório, no qual a pista não
é liberada. Até aí, mesmo que não
seja nada usual, poderíamos estar diante de relatórios
conflitantes. O interessante é que, ao responder
à pergunta do site “Conversa Afiada”,
o diretor do IPT, Vahan Agopyan, disse: “o IPT
não analisou a pista de Congonhas (...) o IPT
não fez nenhuma outra análise sobre a
liberação da pista de Congonhas, depois
das obras”.
No
dia 23/07, foi amplamente noticiado e mostrado o desbarrancamento
de talude próximo à cabeceira da pista
de Congonhas, tendo sido apresentado como mais um caso
de incapacidade e descaso gerencial do governo, praticamente
sem noticiar que a drenagem do talude não foi
recuperada por determinação da PF, em
função das investigações
que estão em curso e são desejadas por
todos.
Nos
últimos dias, muitos editoriais e colunistas
passaram a assumir um tom jocoso, conforme sistematizado
pelo jornalista Marco Aurélio Weissheimer (Carta
Maior), que registra a utilização dos
seguintes termos: “colapso do lulismo”,
“corriola governamental” e “incapacidade
de governar o país”.
Além
disto, ele também chama a atenção
para declarações de Ministro do Superior
Tribunal Militar (“pessoas de bem vão se
pronunciar como já fizeram em um passado não
muito distante”). O editorial do jornal O Estado
de S. Paulo, no dia 24/07, fala em “governo desacreditado”
e “colapso do lulismo em matéria de permitir,
em última análise, que o país funcione”.
O Estadão refere-se ao Presidente da República
como “o inexperiente Lula, o qual na irrefutável
constatação de Orestes Quércia,
em 1994, nunca dirigiu nem um carrinho de pipoca, antes
de ambicionar o Planalto”.
Na
mesma direção, o colunista Clóvis
Rossi, pergunta (24/07), na Folha de S. Paulo: “se
o país é incapaz de segurar um avião
na pista, vai segurar o quê?”. Parece que
a mídia também não consegue segurar
o tom de crise generalizada e paralisia nacional –
parece que a tragédia e seu contexto deixaram
de ser centrais -, como mostra, ainda, o jornalista
do “Carta Maior” ao citar o jornal O Globo
que, em editorial, diz que “a crise é mais
profunda do que se quer fazer crer”. Também
no Globo, Dora Kramer diz que “à corriola
governamental tudo é permitido: agredir o público
com grosseria, com leviandade, com futilidades, com
fugas patéticas ao cumprimento dos deveres, com
indiferença, vale qualquer coisa se a anarquia
tem origem nas hostes governistas”. “Corriola”,
em seu uso informal, lembra Weissheimer, significa “grupo
de pessoas que agem desonestamente ou de forma inescrupulosa;
quadrilha”.
No
dia seguinte, 25/07, José Nêumanne (Estadão),
não contente em classificar os assessores do
governo como neostalinistas, adiciona os epítetos
de obscenos, insensíveis e incompetentes, concluindo
o processo que além de construir a culpa da tragédia
como obra meticulosa do governo e do próprio
presidente Lula, fartamente identificado como responsável
pelas mortes, quer ir ainda mais longe, e vincular o
governo, e também o PT, com a herança
do stalinismo (numa ignorância ou má fé
em relação a uma tradição
política que foi construída contra a esquerda
tradicional e foi duramente combatida por ela).
Na
construção do “caldo de cultura”
apropriado para a elevação do tom dos
ataques ao governo, cabe todo o tipo de tempero, mesmo
quando é colocado pela própria empresa
diretamente envolvida na tragédia, a TAM. A imprensa
noticia que dois pilotos, “autorizados pela TAM”,
declaram que o problema é pista, não avião,
além de outros pilotos que “se recusam
a pousar" em Congonhas. No mesmo dia, segundo a
Globo, ao comentar esse episódio, “a TAM
disse apenas que é questão de soberania
dos pilotos” (Nelson Sá).
Ninguém
se importou em tratar desta contradição
entre a alegada autonomia dos pilotos e a informação
de que houve autorização da TAM e, tampouco,
avaliar as formas pelas quais a empresa busca se proteger
e elidir as suas responsabilidades na segurança
dos passageiros e na manutenção das aeronaves.
A TAM, estranhamente, tem sido tratada como vítima
e não sujeito da crise.
Como
o fogo do “caldo de cultura” da crise já
estava alto, estavam criadas as condições
para ir ainda mais longe. Segundo notícia veiculada
no Adnews (23/07) “a mídia fará
um minuto de silêncio em protesto à tragédia
aérea. Diversas emissoras de rádio e TV
firmaram apoio ao ato cívico Pelo Brasil, Pare”.
A idéia é realizar um minuto de silêncio
em homenagem às mortes, em decorrência
do acidente com o avião da TAM. A transmissão
da mensagem de protesto acontecerá ao vivo e
a campanha solidária é coordenada por
João Doria Jr., amigo próximo do ex-presidenciável
tucano Geraldo Alckmin, com o apoio de Luiz D'Urso presidente
da OAB-SP e outros 40 empresários.
Segundo
Bob Fernandes, a articulação ganhou o
nome oficial de Movimento Cívico pelos Direitos
dos Brasileiros, mas é informalmente conhecida
como “Movimento Cansei”. As consignas são
“Cansei da corrupção” e “Cansei
do apagão aéreo”. Mesmo que não
haja menção direta ao presidente Lula,
ele seria o alvo, segundo Bob Fernandes. A formalização
do apoio dos empresários engajados na proposta
será feita em reunião no escritório
Doria Associados.
De
acordo com informação do jornal Folha
de S.Paulo, entre o grupo estão os publicitários
Nizan Guanaes e Sérgio Gordilho, da agência
África. Peças publicitárias serão
veiculadas em veículos como forma de apoio solidário
ao movimento. O material de divulgação
do protesto deve entrar no ar nos próximos dias.
Para
demonstrar que a tragédia com o avião
da TAM está sendo utilizada para coesionar o
discurso e a ação da oposição
ao governo, a coluna de Cláudio Humberto noticia
uma mobilização para “pedir o impeachment
de Lula, dia 4, em passeata na Av. Paulista. Os organizadores
vão colocar nariz de palhaço, roupas pretas,
e levar fotos dos mortos nos acidentes, além
de faixas e cartazes de protesto”. É o
dia, segundo o jornalista, do “Fora, Lula”.
Por
sua vez, o blog de César Maia publica excertos
de um denominado “Manifesto de Oficiais da Aeronáutica”,
no qual é duramente criticada a criação
do Ministério da Defesa e os ministros que por
lá passaram são caracterizados como “as
incompetências conhecidas e reconhecidas”.
O suposto manifesto segue com várias afirmações
na linha de que a INFRAERO e a ANAC caíram “na
mão de políticos do PT”.
É
um grupo pequeno numericamente, mas com grande agilidade
e capacidade de somar adesão de setores classificados
pelo ex-governador de São Paulo, Cláudio
Lembo, de “elite branca”, que tem produzido
artigos e editoriais como o do Jornal do Brasil de 31/07,
que sentencia que “a crise nos céus permitiu
contemplar a desorganização generalizada.
O Brasil não tem gestor”, construindo um
quadro no qual joga afirmações como a
de que “a adoção de duas metas de
inflação (sic), elevou os juros futuros,
agravando a dívida nacional, minou a credibilidade
externa do país e levantou apreensões
entre os agentes econômicos sobre quais outros
malabarismos poderão ser inventados pelo governo
na ânsia de consolidar as próprias contas
por mágica...”. Afirma tudo isto no dia
em que a agência Reuters divulga que “a
confiança da indústria brasileira atingiu
em julho o maior nível da série histórica
da Fundação Getúlio Vargas iniciada
em 1995, refletindo uma melhora tanto da avaliação
da situação atual como das expectativas”.
Não
faltou, sequer, um artigo de Jarbas Passarinho, no qual
ele afirma que mesmo que a ética e a moral não
sejam “princípios privativos da elite branca,
os menos favorecidos são reconhecidamente insensíveis
a elas se o assistencialismo não lhes deixa passar
fome”.
Ou
seja, a tragédia da TAM, está sendo descaradamente
utilizada, não para cobrar medidas concretas
e objetivas de um governo que herdou uma infraestrutura
sucateada em todos os setores e um país que não
crescia há muito tempo (e que tem o dever de
enfrentar todos esses desafios), mas para construir
uma divisão entre os setores médios e
altos da sociedade, contra os setores sociais populares.
Nesta divisão, os primeiros são identificados
como informados, autônomos intelectualmente e
exigentes em relação à ética
e à moral; enquanto os outros são tutelados,
dependentes de favores governamentais e insensíveis
à ética e à moral.
Parece
que há uma ânsia exacerbada de setores
conservadores e ainda rancorosos com a reeleição
do presidente Lula em tentar se apoderar do luto dos
parentes e amigos das vítimas e politizar a justa
comoção motivada pela tragédia
com o vôo da TAM.
Fizeram
isto para arremessar contra o governo do presidente
Lula, decretando que o seu mandato, iniciado há
seis meses, “começa a se exaurir. E a levar
o país de roldão. É hora de mudar.
Antes de um apagão geral que ninguém quer
e o país não suportará” (Editorial
JB, 31/07).
Este
tom, ao pretender homogeneizar os setores médios
num discurso conservador e anti-Lula (o que é
fortemente arbitrário e não encontra respaldo
na realidade) e separá-los dos setores populares
(que são desqualificados sistematicamente), parece
ser uma tentativa, consciente, ou não, de aproximar
a situação política do Brasil à
da Venezuela.
Felizmente, esta escalada de “venezuelização”
que setores minoritários e parece que saudosos
dos anos de chumbo (que por um momento ganhou a grande
mídia brasileira), parece que foi contida logo
após o primeiro ensaio de mobilização
de rua feita no último domingo, quando a passeata
dos punhos de renda, apesar de sucessivas negativas,
não conteve o seu afã e mostrou inteira
a sua alma, ao pregar o Fora, Lula!
Segundo
noticiado pela Mônica Bérgamo (FSP, 31/07),
depois da TV Globo e TV Bandeirantes, a TV Record e
a Rede TV também desistiram de veicular anúncios
de protesto do “Cansei”, apesar do grande
espaço que lhe é conferido.
A
alienação tradicional da elite ao Brasil
real e o seu pouco apreço aos procedimentos democráticos
estão aliados ao atávico desprezo, tão
evidente quanto negado, aos setores de extração
popular, como bem mostra a afirmação de
Jarbas Passarinho, que os identifica como insensíveis
aos sentimentos de ética e moral. Raciocínio
perigoso e estranho à qualquer compromisso democrático,
dado que a desqualificação dos setores
populares pode conduzir para qualquer outro caminho,
menos o do aprofundamento da democracia. Jarbas Passarinho
sabe muito bem disto, dado que no seu currículo
está a assinatura do AI-5, que aprofundou o banimento
das liberdades democráticas no país.
A
diferença substantiva que temos no Brasil de
hoje é que a organização social
brasileira fez emergir sujeitos com um grau de autonomia
e capacidade de produzir opinião de forma mais
complexa e sofisticada do que é possível
ser avaliada por aqueles cujo ponto de partida é
associar riqueza com sabedoria e pobreza com estupidez.
Ou, ainda, opinião publicada com a opinião
pública.
A
verdade é que a maioria da população
se enxerga no presidente metalúrgico, mesmo que
possa ter muitas críticas e até mesmo
frustrações com o seu governo. Nesta adesão,
há razões de inteligência material,
já que o país está melhor do que
esteve; assim como razões de inteligência
histórica, dado que existem 500 anos de motivos
para desconfiar das boas intenções e da
repentina sensibilidade social de quem produziu um país
campeão em desigualdades e concentração
de renda, sem manifestar qualquer cansaço disso
nesses cinco séculos.
Sei
que devemos evitar uma visão conspiratória
da história, mas os documentos recentemente colocados
à disposição sobre a participação
dos EEUU no golpe militar de 1964 (para não citar
tantos outros casos, inclusive ao longo da trajetória
do próprio presidente Lula e da construção
do PT), estão aí para Felizmente, esta
escalada de “venezuelização”
que setores minoritários e parece que saudosos
dos anos de chumbo (que por um momento ganhou a grande
mídia brasileira), parece que foi contida logo
após o primeiro ensaio de mobilização
de rua feita no último domingo, quando a passeata
dos punhos de renda, apesar de sucessivas negativas,
não conteve o seu afã e mostrou inteira
a sua alma, ao pregar o Fora, Lula!
Segundo
noticiado pela Mônica Bérgamo (FSP, 31/07),
depois da TV Globo e TV Bandeirantes, a TV Record e
a Rede TV também desistiram de veicular anúncios
de protesto do “Cansei”, apesar do grande
espaço que lhe é conferido.
A
alienação tradicional da elite ao Brasil
real e o seu pouco apreço aos procedimentos democráticos
estão aliados ao atávico desprezo, tão
evidente quanto negado, aos setores de extração
popular, como bem mostra a afirmação de
Jarbas Passarinho, que os identifica como insensíveis
aos sentimentos de ética e moral. Raciocínio
perigoso e estranho à qualquer compromisso democrático,
dado que a desqualificação dos setores
populares pode conduzir para qualquer outro caminho,
menos o do aprofundamento da democracia. Jarbas Passarinho
sabe muito bem disto, dado que no seu currículo
está a assinatura do AI-5, que aprofundou o banimento
das liberdades democráticas no país.
A
diferença substantiva que temos no Brasil de
hoje é que a organização social
brasileira fez emergir sujeitos com um grau de autonomia
e capacidade de produzir opinião de forma mais
complexa e sofisticada do que é possível
ser avaliada por aqueles cujo ponto de partida é
associar riqueza com sabedoria e pobreza com estupidez.
Ou, ainda, opinião publicada com a opinião
pública.
A
verdade é que a maioria da população
se enxerga no presidente metalúrgico, mesmo que
possa ter muitas críticas e até mesmo
frustrações com o seu governo. Nesta adesão,
há razões de inteligência material,
já que o país está melhor do que
esteve; assim como razões de inteligência
histórica, dado que existem 500 anos de motivos
para desconfiar das boas intenções e da
repentina sensibilidade social de quem produziu um país
campeão em desigualdades e concentração
de renda, sem manifestar qualquer cansaço disso
nesses cinco séculos.
Sei
que devemos evitar uma visão conspiratória
da história, mas os documentos recentemente colocados
à disposição sobre a participação
dos EEUU no golpe militar de 1964 (para não citar
tantos outros casos, inclusive ao longo da trajetória
do próprio presidente Lula e da construção
do PT), estão aí para nos alertar de que,
como as bruxas não existem, devemos redobrar
os cuidados com elas. E isto se faz com mais democracia
e mais luta contra a desigualdade social e não
com o retrocesso institucional e a desqualificação
dos setores populares e suas opções eleitorais.
*Gerson
Almeida é sociólogo.
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