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Duas notas sobre o Primeiro Mundo
Marcos Rolim, jornalista

1ª nota - As exitosas operações da Polícia Federal (PF) no combate ao que se convencionou chamar de “crime organizado” estão oferecendo ao Brasil um exemplo das possibilidades abertas às polícias sempre que elas atuam orientadas pela inteligência; um conceito que, em se tratando da instituição policial, significa, basicamente, capacidade investigativa.
Penso que estamos presenciando algo muito importante para o futuro da nação: uma corporação do Estado brasileiro, atuando sem as condições ideais de financiamento e com um contingente pequeno de profissionais, tem produzido resultados que a colocam entre as boas polícias do mundo.
Sublinho três das características a serem destacadas nas ações da PF:
a) as prisões - invariavelmente de pessoas poderosas que coordenavam redes criminais em todo o país - foram efetuadas sem que seus agentes disparassem um só tiro;
b) na maioria dos casos, a qualidadedas provas colhidas autoriza plenamente a perspectiva de condenações judiciais;
c) cada uma das operações foi construída por meses de pacientes investigações e os procedimentos foram, rigorosamente, aqueles autorizados pela legislação. Temos, então, finalmente, uma polícia “de Primeiro Mundo” no Brasil; uma polícia comprometida com o ideal republicano e, não por acaso, cada vez mais respeitada.

Os filhotes extraviados de John Wayne - a turma do “prende e arrebenta”, do “atira primeiro e pergunta depois” - ainda não se deram conta, mas as ações da PF estão mostrando até para as pedras o quanto democracia, ciência e respeito pela lei podem qualificar a atuação policial.

2ª nota - Devemos tomar cuidado com as opiniões, especialmente em áreas, digamos, “vitais” como saúde pública ou políticas de segurança. É que, nestes assuntos, opiniões erradas costumam matar. No RS, já se começou a estranhar a idéia de restrição ao horário de funcionamento dos bares, mal a proposta foi aventada pelo atual secretário de Segurança. Há muitos anos tenho sustentado a necessidade desta medida e, por isso, quero saudar a iniciativa do delegado Mallmann.
Em geral, os que chiam gostam mesmo é quando os gestores anunciam blitze como “política de segurança”.
Quando a “receita” é deste tipo, sabemos, nossos “liberais” tiram férias.
Mas quando se pretende restringir o horário de funcionamento dos bares - pretensão amparada por evidências científicas colhidas em todo o mundo sobre a correlação entre abuso de álcool e taxas de homicídio - então, curiosamente, surgem muitos críticos preocupados com “nossas liberdades”.
Os países escandinavos são, possivelmente, os que mais respeitam os direitos humanos e onde as tradições democráticas foram radicalizadas e transformadas em cultura. Em um deles, a Suécia, nenhum bar pode oferecer bebidas alcoólicas após a 1h da manhã. Tais bebidas, aliás, só podem ser vendidas em lojas especializadas e cada cidadão tem uma quota limite de compra. Ah, ia esquecendo: as bebidas custam muito, mas muito caro por lá. Na Suécia, esta política foi, em regra, fortemente apoiada pela mídia. É que, nestes assuntos, o pessoal costuma ouvir médicos, criminólogos, sociólogos e outros especialistas, antes de correr para as redações e lascar uma opinião.
Sorte dos suecos...

Publicado no jornal Zero Hora, em 27/05/2007