Estamos
aqui reunidos para celebrar o dia mundial do meio ambiente,
mas também para saudar, homenagear e agradecer
a todos aqueles que desde os mais longínquos
tempos até os dias de hoje, contribuíram,
orgulham e ajudaram colocar este Estado, na vanguarda
e na competência de gestão no campo ambiental.
Com toda a justiça e o merecimento, seus pioneirismos
e originalidades foram fundamentais para nossa geração
e tenho certeza para as que se seguem. Fixar datas como
a de hoje não devem ser entendidas como um mero
rito, aliás a história da humanidade está
repleta de cerimônias. Mas pretendemos sim, afirmar
e reafirmar momentos, que podem se fundir com datas,
que os homens consideram dar sentido à suas vidas.
Seja na sua particularidade de indivíduos, seja
na pluralizada condição de protagonistas
ou partícipes de uma determinada época.
Assim estes são um daqueles breves momentos,
onde por alguns minutos, pretendemos estancar o fluxo
da história, interromper a interrompível
corrente uniforme do tempo e buscar registrar e testemunhar
um tempo e um período importante para a nossa
geração. Seja através da reflexão
e da instigação, seja através do
alimento da memória, selo com que enviamos para
à posteridade a correspondência de uma
época.
Peço a permissão inicialmente, para referir
estas bravas, incansáveis e corajosas lutadoras
e lutadores do movimento ambientalista gaúcho
que estão aqui conosco na mesa da AL/RS dona
Giselda Castro e dona Hilda Zimermann, que juntas com
dona Magda Renner, o inesquecível José
Lutzembeger e seu fiel parceiro Augusto Carneiro, que
criaram a Agapan em 70, lembro ainda Celso Marques,
Flávio Lewgoy, Sebastião Pinheiro, Jaques
Saldanha, Caio Lustosa, Juarez Tosi e o núcleo
de ecojornalistas dentre vários outros que queria
citar, mas que infelizmente o tempo não permite,
ao referi-los quero dar um sentido simbólico
a presença de cada uma das pessoas aqui neste
momento e dizer que é desta forma singela que
nos associamos juntos com mais de 100 países,
para fazer algumas reflexões acerca do tema das
Mudanças Climáticas, aliás sugestão
da ONU, que institucionalizou a data de 5 de junho como
Dia Mundial do Meio Ambiente. E dizer a vocês
que mesmo que o conformismo diante do estabelecido pareça
ser de fato o espírito do nosso tempo, vocês
são aquele aspecto de rebeldia e de inconformismo
diante de uma realidade que se pretende indiscutível,
que se pretende portadora da última e penúltima
palavra. E esta realidade, embora emudecida de conteúdo
e esvaziada de conceitos, diz saber tudo sobre tudo,
e, o que é infinitamente mais perverso, sobre
todos. E é com este sentido instigativo e com
o legado da capacidade crítica do nosso movimento
ambientalista, que devemos buscar superar o espírito
de nossa própria época e retornar quem
sabe, seja ao criticismo ilumunista da luta contra a
monarquia, que habitou o século XVIII, ou até
mesmo a ironia com que o século XIX chegou ao
seu final, mas teve ainda forças para fazer emergir
novos movimentos sociais como o ambientalista, e ainda,
fecundar o conhecimento humano por mais de um século,
atingindo até os finais dos anos 60 e 70 do século
XX. Aquelas décadas onde os incautos já
começavam a dizer à nossa geração
que haviam findado as utopias. Pois justamente, talvez
menos pelo criticismo iluminista, que aliás era
limitado na compreensão das questões da
natureza, e quem sabe, mais pela ironia, pois foram
nestes anos que Lutz e outros abnegados criaram a Agapan
e o estudante Carlos Alberto Dayrel subiu na árvore
(tipuana) na frente da Faculdade de Direito da Ufrgs
e de lá desafiou num ato simbólico a ditadura
militar.
A humanidade vive uma época crítica, o
planeta um tempo febril, onde toda sua fragilidade é
revelada. Parece o mundo apontar mais para um rumo imponderável
e irracional, do que para uma época portadora
de um sentido de futuro para nós e as gerações
que nos seguirão.
São as alterações climáticas,
já resultantes do aquecimento global, secas e
invernos sem neve em partes significativas do planeta,
tragédias ambientais de grandes proporções,
desertos avançando, é a voracidade urbana
da modernidade, aumento de lançamento de gases
tóxicos na atmosfera, perda acelerada da biodiversidade
mundial, incremento no nível dos oceanos, regimes
de chuvas incertos, a crescente falta d`água
e a extinção de espécies.
O planeta está enfermo, sua temperatura média
aumentou em quase 1°C nos últimos 100 anos
e sua previsão de crescimento se acelera, sendo
muito superior às variações entre
o período da passagem do feudalismo para o capitalismo
e a pré-industrialização.
O aquecimento global e suas repercussões não
podem mais serem taxados de visões fundamentalistas
e muito menos de previsões meramente apocalípticas,
ou uma visão apenas de alguns iluminados ou mesmo
a vanguarda mais conscientes da sustentabilidade ambiental.
O aquecimento é hoje, uma verdade cruel e inconveniente
no mundo moderno, mais do que uma triste realidade,
mas uma realidade triste do nosso tempo, que além
de já provocarem estiagens estruturais, inundações,
quebras de colheitas e portanto fome nos países
mais pobres, já ameaçam varrer literalmente
do mapa, países situados em ilhas coralinas.
Um recente relatório feito por Nicholas Stern
demonstra os prejuízos econômicos que serão
provocados pelo aquecimento, estimando em uma perda
de 20% do PIB global nos próximos 30 anos. Que
seriam evitados com um investimento de cerca de 1% deste
PIB para conter este fenômeno, deixando claro
que seu custo de combate é muito inferior a conviver
com ele.
No nosso país, estudos realizados pelo MMA mostram
que o aquecimento já ocasiona quilômetros
de erosão no nosso litoral, aumentam as inundações
na região sudeste, amplificam as secas no nordeste,
os regimes de chuvas na região sul já
não são mais os mesmos de outrora e algumas
culturas tradicionais já começaram a desaparecer.
Até agora as políticas, as atitudes e
as condutas diante de tudo isto, mesmo que importantíssimas
quando adotadas, ainda são de pouco alcance,
como o Protocolo de Kyoto e o mercado do carbono. Quanto
à redução da emissão de
gases de efeito estufa, por exemplo, a medida mais concreta
e objetiva até agora implementada é a
da União Européia, que é de reduzir
em 20% até 2020, entretanto ficou restrita a
somente este bloco. Faltam políticas e medidas
mais ousadas, mais totalizantes e abrangentes noutras
regiões do planeta.
Não bastasse toda esta perspectiva sombria que
assola a humanidade, vemos que, ainda que tenhamos dados
passos significativos no campo das políticas
públicas, da gestão e da legislação
ambiental nos últimos anos, no país, no
estado e nos municípios, ainda vivemos um período
de muitas dificuldades de consolidação
de avanços importantes. E é muito difícil
numa data como esta não abordar as questões
de políticas ambientais mais próximas
a nós. Que em alguns casos já combinam
com uma clara política de recuo ou retrocesso
em relação aos acúmulos anteriores.
Se avançamos no campo da legislação,
percebemos limites muito objetivos para uma agenda pró-ativa
no campo do desenvolvimento sustentável, capaz
de combinar a um só tempo, crescimento econômico,
geração de emprego e renda com distribuição,
inclusão social e por decorrência diminuição
das desigualdades, concebendo a questão ambiental
como um ativo e não um obstáculo ao desenvolvimento.
Aliás, esta é, ainda, infelizmente, uma
das formas de como a agenda ambiental aparece e muitas
vezes ganha manchetes, ou quando ainda ocorrem catástrofes
causadas por fenômenos naturais atípicos
ou mesmo quando diante de desastres ambientais como
o que ocorreu recentemente nos Sinos, quando foram recolhidos
quase 90 mil toneladas de peixes mortos.
Por mais notável que seja o esforço do
governo do presidente Lula, e da ministra Marina Silva,
colocando o país no eixo da matriz energética
limpa e posicionando o país na liderança
sobre tema, numa clara contraposição há
um passado subordinado e submisso, ainda não
vemos a dimensão ambiental como fundamental no
conceito de desenvolvimento sustentável do país.
Seguimos ainda com aquela “velha e superada”
visão desenvolvimentista de curto prazo, que
não incorpora o caráter estratégico
da dimensão ambiental no foco do desenvolvimento.
Temos imensa dificuldade de pensar no médio e
longo prazo, e, em conseqüência, de construir
pactos na sociedade que impliquem em determinadas renúncias
ou superação via consensos majoritários,
de interesses imediatos de curto prazo, ainda que legítimos.
Temos também uma imensa dificuldade de superar
a noção fragmentada, do recorte e da colagem
das partes, pois o todo é que deve informa as
partes e não o inverso, e ainda continuamos insistindo
que cada setor, ou cada política específica,
opina só sobre sua especialidade sem que haja
um cruzamento matricial capaz de fazer o inter-relacionamento.
Isto ao invés de gerar uma concepção
totalizante, gera uma teia de contradições
e porque não dizer de conflitos, seja entre meio
ambiente e infra-estrutura, seja entre crescimento econômico
e meio ambiente, seja entre política industrial
e agrícola, seja entre agricultura familiar e
o agro-negócio e seja entre meio ambiente e geração
de emprego e renda. E esta visão e compreensão
se rebate para as outras esferas públicas.
Por tudo isto, necessitamos não só superar
esta visão mas reconhecer a necessidade de construção
de objetivos mais firmes, que incorporem a noção
mais abrangente de desenvolvimento sustentável.
Não poderia deixar de referir aqui, que nosso
governo deve superar a forma como encaminhou a questão
do IBAMA para o congresso, ainda que seja fundamental
fortalecer e melhorar os licenciamentos, é preciso
ampliar o diálogo com os servidores e também
com o deputados e senadores, pois está é
a tradição e a relação histórica
que sempre tivemos com o setor.
Já aqui no estado, há uma nítida
situação de desacumulo, não bastasse
as recorrentes trocas nos últimos anos nos responsáveis
pelos órgãos ambientais, fica evidente
que há um recuo nas políticas. E a preservação
do meio ambiente não consegue ser traduzida em
força política e institucional para tratar
as regulações neste campo como normais,
naturais e necessárias. O zoneamento ambiental,
por exemplo, é a melhor forma de dotar o estado
de um instrumento de gestão com critérios
universais e transparentes, passíveis de modificação
diante de argumentos bem fundamentados. A existência
de instrumentos de gestão é duplamente
vantajosa, de um lado porque possibilita a construção
de um ambiente seguro para os investimentos, de outro,
porque ajudam a preservar o patrimônio natural.
E cabe exatamente ao Estado produzir um regramento e
mediar as relações de tensões e
de conflitos, de forma clara e do conhecimento de todos,
evitando que muitas vezes a rapidez de respostas, ainda
que legítimas, exigidas pelos setores econômicos,
implique em abdicar de compromissos com a sustentabilidade.
E estes são impasses que não se resolvem
com substituição de gestores nem com fechamento
de órgãos, como o batalhão ambiental
da BM, por exemplo, mas sim com melhorias e investimentos
técnico-administrativos nos órgãos
em questão, para que estes cumpram de forma adequada
suas atribuições e responsabilidades.
Aliás necessidade premente hoje na nossa FEPAM,
que recorrentemente tem seu qualificado e preparado
quadro de servidores levados uma permanente condição
de exposição, quando na verdade o que
falta a eles são investimentos e melhores condições
de trabalho.
Do contrário quem sabe não caminharemos
só para o retrocesso, mas talvez para o colapso
da gestão ambiental no solo gaúcho como
revelou recentemente a mortandade de peixes no rio dos
Sinos. Onde ficou evidente uma situação
completamente fora de controle dos órgãos
responsáveis, que veio acompanhada de um diagnóstico
que não se sustentou, usando o péssimo
hábito de informar inadequadamente a população
das razões da tragédia e por fim a nítida
sensação de irresponsabilidade uma vez
que objetivamente as punições ainda estão
a dever. Mas felizmente, por iniciativa dos municípios
que compõem a bacia do Sinos foi criado um consórcio
para enfrentar a situação, ao qual o governo
do estado sinaliza que vai se associar.
E o alerta da inaceitável tragédia dos
Sinos, tal como os sinos da tragédia deve seguir
badalando e alertando os órgãos públicos
da imediata e necessária reestruturação
da gestão ambiental do Estado.
E se medidas não forem tomadas neste sentido,
regiões metropolitanas como a de Porto Alegre,
neste privilegiado lugar ao lado do lago Guaíba
e seus afluentes, onde nas suas proximidades está
instalado o maior parque industrial gaúcho, correm
o risco e a vulnerabilidade de a qualquer momento estarem
sujeitos a um desastre sem proporções,
revelando o quanto a ausência de programas importantes
de gestão ambiental de envergadura como já
tivemos em outros momentos como o Pró-Guaíba,
o Guaíba Vive e uma política de renovação
das frotas de ônibus de POA com motores com menos
emissão bem como ausência do vetor ambiental
na revisão do Plano Diretor da capital, são
reveladores de que estamos perdendo o pioneirismo e
o vanguardismo que tivemos em outras épocas.
E, para finalizar, quero deixar uma consideração
para reflexão. Numa época em que a sociedade
contemporânea chegou, de um lado, a um evidente
padrão de consumo, produção e reprodução
que se aproxima de sua inviabilidade, e de outro, com
o aquecimento global o planeta poderá ficar irreconhecível
nas próximas décadas, o movimento ambientalista
não pode perder a oportunidade de ter uma postura
que combine firmeza e pró-atividade, capaz de
tornar cada vez mais realidade a necessária articulação
das lutas pela sustentabilidade ambiental com as demais
lutas sociais sobretudo contra a exclusão e a
desigualdade, como propugnam a Carta da Terra, o relatório
Bruntland e a Agenda 21. Documentos fundamentais para
a produção de consciência ambientalista
mundial e que apontam para uma necessária aliança
estratégica entre a luta contra a degradação
ambiental e a luta contra a exclusão social.
Reconhecendo em outros movimentos sociais e na ação
político-institucional, relações
e espaços importantes, para superar ainda uma
forte componente de ter o movimento ambientalista a
primazia de ser vocacionado a ter uma visão global
e holística e outros setores uma visão
parcial ou mesmo limitada.
Isto lhe dá mais abrangência, mais legitimidade
e mais capacidade para influenciar e liderar a inserção
positiva da dimensão ambiental como um ativo
na estratégia global do desenvolvimento sustentável.
Dando forte contribuição para agregar
a este momento global, elementos fundamentais para a
noção de um caráter crítico
dedesenvolvimento de novo tipo, capaz de superar modestas
utopias que se confundem muitas vezes com medíocres
desejos de consumo para as formas precárias de
convivência social, recapturando pois o melhor
das determinações humanas e reencontrando
e fundindo o processo da razão e da natureza
contra à irracionalidade, que vem sempre desprovida
da noção de pertencimento à sociedade
humana.
Como dizia o grande Maiakovski: Para o júbilo
o planeta está imaturo. É preciso arrancar
alegria ao futuro.
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