"O
Estatuto da Criança e do Adolescente está
produzindo uma verdadeira mudança cultural
no Brasil, ao colocar crianças e adolescentes
como sujeitos de direitos e prioridade absoluta."
"O
grande desafio deste governo é consolidar a
política de direitos da criança e do
adolescente como intersetorial, ou seja, com ações
previstas em vários ministérios e que
não sejam apenas um somatório, mas que
tenham a devida sinergia."
"Não
se pode afirmar que a lei só garante direitos,
quando ela prevê que um adolescente, a partir
dos 12 anos, tenha responsabilidade penal."
"Não
há evidências estatísticas que
comprovem uma maior participação dos
adolescentes na criminalidade. Um levantamento realizado
pela SEDH evidenciou que o motivo predominante para
internação de adolescentes são
delitos menos graves."
Um
marco na garantia dos direitos e na proteção
da criança e do adolescente no Brasil, o Estatuto
da Criança e do Adolescente (ECA) completa
hoje 17 anos de vigência. Em quase duas décadas,
a lei consolidou direitos, como a constituição
dos conselhos tutelares - presentes em 90% dos municípios
brasileiros --, o enfretamento à violência
sexual e o combate ao trabalho infantil, "problemas
que entraram na pauta da agenda nacional do País",
conforme a subsecretária de Promoção
dos Direitos da Criança e do Adolescente da
Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência
da República (SEDH), Carmen Oliveira. No cargo
desde 2006, a psicóloga Carmen Oliveira nesta
entrevista ao "Em Questão" destaca
os avanços do Estatuto e delineia os principais
desafios das políticas de direitos da criança
e do adolescente no País. A subsecretária
ainda rebate as críticas ao ECA referentes
às penas previstas para o jovem infr ator,
fala de maioridade penal e trata da importância
do Projeto de Lei, que o governo encaminha esta semana
ao Congresso Nacional, regulamentando o Sistema Nacional
de Atendimento Socioeducativo (Sinase).
Em
Questão - Nesses 17 anos de vigência
do ECA, quais foram os principais avanços no
que diz respeito à garantia dos direitos e
deveres da criança e do adolescente?
Carmen
Oliveira - Desde sua promulgação, o
Estatuto da Criança e do Adolescente está
produzindo uma verdadeira mudança cultural
no Brasil, ao colocar crianças e adolescentes
como sujeitos de direitos e prioridade absoluta. Esta
prerrogativa, no Código de Menores (vigente
até 1990), era impensável, uma vez que
os menores de idade não tinham voz perante
a lei. A nova legislação trouxe implicações
para as políticas públicas, pois não
se trata mais apenas de garantir a assistência,
mas os próprios direitos desta parcela da população.
Para assegurar isto, o Estatuto previu a constituição
de um sistema de garantia de direitos, composto em
sua base pelos conselhos tutelares e de direitos (nacional,
estaduais, distrital e municipais). Atualmente, 90%
dos municípios brasileiros têm conselhos
de direitos e tutelares implantados. Nos últimos
quatro anos, os principais avanços do ECA,
reconhecidos pelo Conselho Nacional dos Direitos da
Criança e do Adolescente (Conanda), foram os
novos planos nacionais: de enfrentamento da violência
sexual, de prevenção e erradicação
do trabalho infantil, de convivência familiar
e comunitária e o Sistema Nacional de Atendimento
Socioeducativo (Sinase). Estes planos deram visibilidade
a problemas até então pouco enfrentados
pelo poder público e pela própria sociedade,
e os colocaram na pauta da agenda nacional do País.
Por outro lado, os programas de apoio às famílias,
como os de transferência de renda, favoreceram
a melhoria de vários indicadores como a evasão
escolar, saúde infantil e o enfrentamento das
iniqüidades regionais, étnico-raciais
e de gênero. A recente aprovação
do Fundeb (Fundo de Manutenção e Desenvolvimento
da Educação Básica e de Valorização
dos Profissionais da Educação) vai incidir
na garantia de direitos como o acesso à creche
e à pré-escola e, com isso, propiciar
oportunidades de desenvolvimento integral na primeira
infância, direitos instituídos pelo Estatuto
.
EQ
- O que é necessário aprimorar?
CO
- O grande desafio deste governo é consolidar
a política de direitos da criança e
do adolescente como intersetorial, ou seja, com ações
previstas em vários ministérios e que
não sejam apenas um somatório, mas que
tenham a devida sinergia de "chegar junto"
nos territórios. Neste ano, o maior avanço
foi a constituição de propostas para
a Agenda Social. No caso da criança e do adolescente,
a formulação integrou vários
setores e mobilizou suas equipes para uma produção
coletiva. A curto prazo, esta lógica já
vai se refletir na elaboração do novo
Plano Presidente Amigo da Criança e do Adolescente
e nos Planos Plurianuais setoriais (PPAs). Com isto,
a SEDH vê fortalecida sua função
principal que é a de articulação
das políticas federais para promoção
e defesa dos direitos das crianças e adolescentes.
EQ
- O estatuto é considerado um grande avanço,
mas ainda enfrenta críticas, como as que dizem
que a lei "apenas garante direitos" aos
jovens e os deveres ficam para trás. Qual a
posição da secretaria com relação
a essas críticas?
CO
- O ECA é considerado por muitas pessoas como
brando, especialmente no que se refere ao adolescente
em conflito com a lei. Há, inclusive, quem
atribua a violência juvenil ao fato de que o
Estatuto restringe a ação disciplinar
da família e dos professores. Fala-se em falta
de limites, quando na verdade o que o Estatuto vem
afirmar é uma cultura de direitos em que o
autoritarismo não pode ser confundido com autoridade.
Por outro lado, não se pode afirmar que a nova
lei só garante direitos, quando ela prevê
que um adolescente, a partir dos 12 anos, tenha responsabilidade
penal e seja passível, inclusive, de receber
uma medida de privação de liberdade,
por até três anos, o que nesta faixa
etária significa um quarto de sua existência.
EQ
- Com os altos índices de violência nas
cidades brasileiras ressurgiu no Congresso a discussão
sobre a maioridade penal como forma de combater a
criminalidade sob o argumento de que há uma
participação crescente de menores envolvidos
em crimes graves. Há evidências deste
fenômeno?
CO
- Não há evidências estatísticas
que comprovem uma maior participação
dos adolescentes na criminalidade. Apesar disso, ele
é considerado hoje o inimigo público
nº 1 da sociedade. Pesquisa recente do Instituto
Latino-Americano para a Prevenção do
Delito e Tratamento do Delinqüente (Ilanud),
realizada no estado de São Paulo, constatou
que, do total de crimes praticados, os adolescentes
são autores de 10% das infrações.
Um levantamento realizado pela SEDH, no ano passado,
evidenciou que o motivo predominante para internação
de adolescentes em conflito com a lei são delitos
menos graves, como aqueles contra o patrimônio,
que correspondem a 75% dos casos. O que se observa
é a crescente prisionalização
dos adolescentes, uma vez que o sistema socioeducativo
cresceu 363%, entre 1996 e 2006. Hoje, temos cerca
de 15,5 mil adolescentes internos e um déficit
de três mil vagas. Chama a atenção
o fato de que existem 700 vagas sobrando para a m
edida de semi-liberdade, revelando uma tendência
do judiciário a fazer o uso de medidas mais
punitivas. É provável que as pressões
sociais por um estado penal máximo acabe influenciando
a decisão judicial. Também concorre
para isso um equívoco nas políticas
socioeducativas que vinham sendo construídas,
priorizando a internação ao invés
da implantação de programas municipais
de acompanhamento de adolescentes em cumprimento de
medidas de prestação de serviços
à comunidade e liberdade assistida.
EQ
- O governo vai encaminhar um projeto de lei de Execução
das Medidas Socioeducativas. Do que trata esta lei?
O que é o Sistema Nacional de Atendimento Socioeducativo?
CO
- No final dos anos 90, em meio à falência
do chamado "modelo Febem", o Conanda (Conselho
Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente)
iniciou a construção de dois novos instrumentos:
de um lado o Sinase (Sistema Nacional de Atendimento
Socioeducativo), aprovado em julho de 2006, e o Projeto
de Lei de Execução de Medidas Socioeducativas,
que está sendo encaminhado esta semana pelo
Presidente da República ao Congresso. Este
Projeto institui o Sinase e isto representa muitos
avanços na política de atendimento socioeducativo,
contemplando lacunas do ECA. Em primeiro lugar, porque
define a responsabilidade dos três níveis
de governo e propõe a intersetorialidade na
política socioeducativa. Até então,
este tema era vinculado a apenas uma pasta dos governos,
empobrecendo a intervenção e também
o orçamento. Hoje, no governo federal, temos
uma comissão intersetorial de implementação
do Sinase composta por 10 ministérios, o que
nos possibilitou construir uma agenda forte e conjunta
para os próximos quatro anos. O Sinase ainda
preconiza a municipalização do atendimento
em meio aberto e define parâmetros pedagógicos
e arquitetônicos para as unidades de internação.