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5ª Feira Literária e Mostra Artística

Ser pratono - *Celso Sisto
Ser patrono é ser cúmplice. É patrocinar, de alguma maneira, com suas idéias e ações, a ação do outro. E que bom que neste caso, a ação é uma Feira de Livros.

Sabemos que esta feira, diferente, pois aqui não apalparemos frutas e legumes, e sim, páginas impressas, é, de todo modo, oferta de alimentos também para a alma. Um livro “consumido” se mistura pra sempre com nossas células e fica já fazendo parte da nossa memória de leitura! Todos nós passamos a vida construindo essa memória.
Uns constroem mais outros menos, uns constroem memórias de mais peso outros, memórias que depois de processadas, continuam magrinhas, porque as obras que serviram de alimento tinham poucos nutrientes.

Mas assim como se aprende a comprar as melhores mercadorias na Feira de Hortifrutigranjeiros, também se aprende a escolher melhor as obras que seguirão sendo nossas companheiras para toda a vida. Aliás, esse é sempre o grande aprendizado: a escolha! Escolher obras de qualidade é realmente uma construção! Não faz mal que a gente comece (e continue) lendo gibis, best-sellers, auto-ajuda, revistas de fofocas, livro fininho e com letra grande... Aliás, toda boa literatura é sempre de alta ajuda. Alta, altíssima ajuda!

O que importa, de verdade, é que a gente, nesse processo, vá aprendendo a discernir o que é bom e o que não é. O que tem qualidade literária e o que não tem. O que é apenas digerível e esquecível e o que vai ficar pra sempre. Livro que não fica ecoando, não presta!

A formação do leitor é assim mesmo! Na medida em que o leitor vai deixando de ser um leitor ingênuo, vai se tornando mais exigente e vai querendo obras mais elaboradas, mais densas, mais bem escritas. E nossa lista individual de livros recomendáveis e de boas obras, vai se ampliando e se modificando. Os clássicos da minha infância, não são mais os clássicos da infância de hoje. Ou, pelo menos, não são mais os únicos! Naquela época, muitas vezes, um jovem era obrigado a ler os clássicos da literatura brasileira e a fazer fichas de leitura, o que em muitos casos, afastava cada vez mais, o leitor do livro.

Mas isso não quer dizer que as adaptações que transformam as obras principais da literatura em livros para crianças, com edições de fundo de quintal, com uma frase por página, como fazem por aí, seja literatura e seja admissível. Precisamos tomar cuidado!

E não carregar por aí malinhas que empobrecem o que levou-se anos para construir. Sim, porque um patrimônio literário, como os clássicos de todos os tempos, do tipo Alice no País das Maravilhas, Peter Pan, Pinóquio, O mágico de Oz etc., não são reduzíveis a uma frase por página. São obras do mais alto nível, que devem ser lidas na íntegra, no momento certo. Assim é com toda a literatura: há um momento certo para ler uma determinada obra! Momento certo não é faixa etária! O que conta é a maturidade do leitor! Sua convivência com a leitura, sua experiência de leitura.

Felizmente hoje existem novos autores escrevendo especificamente para esse público leitor de crianças e jovens. E a qualidade técnica dos livros teve um avanço descomunal: na impressão, nas ilustrações, nas técnicas empregadas, nos temas abordados, tudo isso sofreu modificações.

O livro de literatura para crianças e jovens hoje traz em si o conceito de objeto de arte. O livro é um objeto de arte! E os professores se tornaram leitores (esses que são dignos do título de professores!). Os pais tiveram que participar da leitura dos filhos, ler junto. O poder público teve que construir bibliotecas públicas para atender a demanda desses leitores. (dizem, inclusive, as estatísticas, que dos 5. 564 municípios brasileiros há 6,8 % de municípios sem esse serviço básico que é a biblioteca pública!).

Será que estou apenas delirando quando afirmo que a leitura é responsabilidade da família, da escola e do poder público?

As Feiras de Livros neste país tornaram-se um evento cultural: englobam apresentações artísticas, encontros com autores, debates, palestras, cursos, oficinas... O importante é que o livro esteja no centro da discussão. Atividades que não promovam o livro ou não sejam fruto da leitura, podem esperar outra ocasião para serem mostradas!

É muito bom saber e ver um espaço fervilhando em torno do livro e da leitura. Algumas frases de efeito continuam valendo, apesar de tão usadas: “Um país se faz com homens e livros” (Monteiro Lobato); “O livro caindo n’alma, é germe, que faz a palma, é gota, que faz o mar” (Castro Alves). Pra ficar nas mais conhecidas!

Mas, de todas essas frases retumbantes, encontrei uma que é especial, pouco conhecida no Brasil, e perfeita, para este momento: “Não se deve aos livros o que se é, mas o que se deixou de ser” (Juan José Millás). É a leitura que nos faz cidadãos!

Mas não podemos permitir que a leitura seja apenas um evento, com data e local marcado, apenas uma vez por ano. A leitura precisa ser diária, precisa ser uma prática constante, para todos. Leitura não é só função da escola, repito! Formar leitor é um processo, um programa, que deve ser levado adiante por todos os segmentos sociais como uma política pública, com continuidade e com seriedade. A Feira de Livros pode e deve ser apenas a culminância das ações contínuas em torno da questão da leitura.

Na verdade, a Feira de Livro pode ser ponto de partida ou ponto de reunião. O que faz uma feira de livros é defender um legado cultural, que é o livro, para que ele possa ser, cada vez mais, um bem de todos.

Enquanto se espera a próxima feira de livros, todo mundo pode ter um ambiente de leitura em sua casa, um cantinho, uma estante, uma prateleira. Todo mundo tem direito a ter uma biblioteca em sua casa! Vamos construir nossa biblioteca particular e familiar? Nessa biblioteca pode tudo! Inclusive, ler todo mundo junto, porque a leitura aproxima e cria afetos! Dá pra ler poesia em voz alta, contar as histórias familiares do passado, recolher as histórias locais, as histórias contadas na região, as histórias conhecidas pelos mais velhos, para que elas não se percam com eles... Isso é patrimônio!

A função social de qualquer ação de promoção de leitura é aparelhar esse leitor para que ele se torne um leitor crítico!

E deixo aqui uma poesia ao vento, ao pé do ouvido, para que ela se espalhe e faça morada em muitos corações:

RECEITA de acordar palavras

Palavras são como estrelas
facas ou flores
elas têm raízes pétalas espinhos
são lisas ásperas leves ou densas
para acordá-las basta um sopro
em sua alma
e como pássaros
vão encontrar seu caminho
*Celso Sisto é escritor, ilustrador, contador de histórias do grupo Morandubetá (RJ), ator, arte-educador, especialista em literatura infantil e juvenil, pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Mestre em Literatura Brasileira pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e responsável pela formação de inúmeros grupos de contadores de histórias espalhados pelo país.