“O
sentido simbólico deste momento nos instiga afazer
um par de reflexões, mergulhando, quem sabe,
nas motivações que nos levaram a tamanha
honraria e distinção, para dar evidentemente
um sentido a ela.
Ser agraciado com tão importante láurea,
o Prêmio Springer Carrier – Por Um Rio Grande
Maior, criado há 46 anos pela empresa Refrigeração
Springer, sob inspiração do empresário
Paulo Vellinho, promovido pela ARI e escolhido por renomada(o)s
jornalistas que acompanham a ação legislativa
diária do Parlamento gaúcho, é
uma satisfação enorme e uma honra para
a nossa equipe, nossa bancada, nosso partido, nossas
relações políticas, para minha
família e para mim.
A escolha talvez se deva a um processo combinado. De
um lado, pelo perfil de atuação parlamentar
que busca aliar fundamentação na defesa
do projeto hoje em curso no país, com posições
firmes e fortes nos embates e nas disputas políticas
na condição de oposição
no Estado. Mas que tem, muitas vezes, que compatibilizar
necessidades pacienciosas de construir consensos majoritários
em torno das questões e dos interesses da nossa
sociedade.
De outro, ao trabalho e à ação
parlamentar que realizamos, promovendo uma visão
de desenvolvimento sustentável, informada pela
necessidade de geração de trabalho e renda,
mas com uma compreensão forte da importância
da inclusão social e a diminuição
das desigualdades. Que se apóia na inovação
tecnológica, no emprego de tecnologias limpas
na proteção ambiental.
Concebendo esta última como um ativo e não
como um obstáculo ao desenvolvimento. Principalmente
num tempo de aceleradas e recorrentes transformações
no campo das mudanças climáticas e, sobretudo,
em época de aumento do aquecimento global.
E que talvez se complete ainda, num momento de crise
da representação na nossa sociedade, pelo
fato de estarmos partilhando da atual construção
da gestão no Parlamento gaúcho com a presença
dos quatro maiores partidos presidindo a Casa pela primeira
vez, nesta Legislatura. Que deu condições
de governabilidade política para, sob seu comando,
presidente, deputado Frederico Antunes, enfrentarmos
de forma firme e sem vacilações os desvios
de condutas inaceitáveis ocorridos recentemente
na Assembléia gaúcha e que devem ser reparados.
Portanto, no que concerne à especificidade da
honraria, a sociedade exige atitude que combine firmeza
com pró-atividade, conferindo à visão
de desenvolvimento o conceito da sustentabilidade.
Apontando para uma fundamental aliança estratégica
entre as lutas e as políticas públicas
que evitem a degradação e conflitos ambientais
e as lutas e as políticas públicas que
enfrentem a exclusão social.
Pois ambas são faces da mesma moeda, já
que a mesma visão que não protege o meio
ambiente é a que promove e aprofunda as desigualdades
sociais.
Segundo o presidente do IPCC (Painel Intergovernamental
sobre Mudanças Climáticas), o indiano
Rajendra Pacchauri, que dividiu o recente Prêmio
Nobel com o ex-vice presidente norteamericano
Al Gore, “o Brasil precisa crescer, mas deve fazer
isto com sustentabilidade e com o mínimo de impacto
ambiental”.
Aliás, a existência de instrumentos de
gestão no campo ambiental pelo Estado, é
duplamente vantajosa. De um lado, porque possibilita
a construção de um ambiente seguro para
os investimentos. E, de outro, porque ajuda a preservar
o patrimônio natural.
A história da humanidade está repleta
de cerimônias. Isto não é por acaso:
elas têm a finalidade de fixar momentos importantes
em nosas vidas, seja na particularidade de indivíduos,
onde vivenciam suas relações pessoais
e familiares, seja na pluralizada condição
de partícipes da sociedade numa determinada época,
como somos nós hoje na condição
de agentes públicos.
Assim, uma homenagem serve de registro da realização
humana. Falo deste momento como uma forma de alimentarmos
a memória e enviar nossa correspondência
à posteridade, portanto, aos que nos seguirão.
Dentre os quais meu filho Pedro, que está aqui
conosco, e que terá a minha idade na metade deste
já turbulento século XXI.
Tenham estas palavras o mesmo sentido das “canções”
de outrora, sobretudo o aprendizado e os ensinamentos
legados por aqueles que nos antecederam, deixando um
grande patrimônio e uma visão moderna da
necessidade da sustentabilidade.
Aliás, ensinamentos estes nas suas diversas áreas
de atuação, que produziram referenciais
que possuem o mesmo sentido que tiveram a visão
de nossos ancestrais: eles nos aproximaram também
da civilização e fizeram recuar os limites
da barbárie.
Tenham certeza que premiar a produção
e a reprodução de uma visão aberta
e atual da necessidade de um desenvolvimento com sustentabilidade,
é ressignificar o seu sentido, atualizar nossos
compromissos com a civilização e reforçar
nossa recusa à barbárie.
Entretanto, para continuarmos atualizando esse compromisso
é preciso agregar a perspectiva crítica
ao conceito de desenvolvimento. Aquele aspecto de rebeldia
e de inconformismo diante de uma realidade que se pretende
indiscutível, que se pretende portadora da última
e da penúltima palavra. Esta realidade, embora
emudecida de formulações teóricas,
esvaziada de conceitos e desprovida de conteúdo,
diz saber tudo sobre tudo e, o que é infinitamente
mais perverso, sobre todos.
Mas essa realidade, supostamente acima de toda a crítica,
sempre apareceu em cada momento histórico sob
um determinado aspecto. E atende pelo nome de lógica
da determinação mercantil e se abriga
na difusa, poderosa, e não menos mitológica,
autoridade e necessidade de que, em nome do crescimento,
se pode tudo.
Se olharmos a sociedade que nos rodeia, o que veremos?
O reino acrítico das coisas, que não admite
mais a contestação, porque não
pode admitir a capacidade crítica do conceito,
o fundamental legado iluminista que chegou até
nós e que produziu e reproduziu também
as nossas mais caras utopias.
A realidade não pode admitir, enfim, a idéia
do conceito, o processo da razão, porque assim
se revela o seu próprio conteúdo de irracionalidade.
Recapturar o caráter crítico e a visão
necessária de desenvolvimento com sustentabilidade,
implica contrariar parte do espírito do nosso
tempo. Implica reencontrar o processo da razão
contra a irracionalidade. Implica, talvez, pensar um
outro conceito de desenvolvimento. Um desenvolvimento
que não signifique a submissão da razão
à irracional espontaneidade mercantil, que não
se determine somente pela lógica do econômico,
ainda que esta seja fundamental.
Precisamos superar uma visão de desenvolvimento,
portanto, que se origina dessa espécie de escambo
universal que a humanidade já produziu e continua
reproduzindo, gerando ainda processos como são
as mudanças climáticas, desastres naturais,
secas prolongadas e inundações que vulnerabilizam
cada vez mais nossas populações.
O Prêmio Springer também atualiza nosso
compromisso com o não abandono do caráter
crítico e se sustenta nas melhores possibilidades
éticas, humanistas e de solidariedade que fomos
capazes de produzir ao longo da história.
Portanto, quero renovar com todos vocês, e com
a sociedade gaúcha, meus sólidos compromissos
com o que eu chamaria de visão de desenvolvimento
sustentável da lucidez, que se opõe à
multiplicação da irracionalidade, que
promove os intercâmbios entre os homens e proporciona
o fraternal comércio do saber, do conhecimento
e da inteligência. Um desenvolvimento, enfim,
que institui a razão, a solidariedade e a sustentabilidade
como moedas fundamentais das trocas do gênero
humano no nosso tempo.
Capaz de desbrutalizar nossa vida cotidiana e dar uma
ressignificação aos nossos sonhos e sentimentos,
para que voltemos a nos sensibilizar, seja com a original
delicadeza dos experimentos florais de Amsterdã,
seja com o belo e crepuscular entardecer do nosso Guaíba.”
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